Teresa Almeida

Cavalo-Marinho

Curiosidades e fatos científicos sobre estas criaturas magníficas que precisam cada vez mais da nossa ajuda.

 

Mitologia

A designação do género Hippocampus, a que pertencem os cavalos-marinhos, deriva do grego Hippos (cavalo) e Kampi (monstro marinho). Homero descreveu o Hipocampo como um monstro marinho dotado de patas dianteiras de cavalo e com cauda de peixe, utilizado por Posídon (deus dos oceanos, dos mares, dos terramotos, das tempestades e dos cavalos) para deslocar-se sobre a superfície dos oceanos.

“Ravage De Neptune Sur Les Champs De Troie”, Gravura Original do século XVIII

Família

Sabias que os cavalos marinhos são peixes? Pois é, são! São considerados peixes ósseos pertencentes à família Syngathidae, a que também pertencem os dragões marinhos e as marinhas. Podem vir a ser descobertas mais espécies mas até ao momento são conhecidas cerca de 54 espécies de cavalos-marinhos, e outras tantas sub-espécies, que se distinguem por variações no comprimento corporal, no focinho, na coloração e no número de anéis ósseos.

Do anão Hippocampus denise (cavalo marinho anão) com 1,5cm ao gigante Hippocampus ingens com 36cm, todos são dotados de uma beleza única.

 

Corpo

É peixe mas não tem escamas. Mesmo assim são uns “tipos duros” pois têm exoesqueleto, ou seja, têm o corpo revestido por anéis ósseos articulares compostos de placas ósseas rígidas e externas. O seu focinho em forma de tubo termina numa boca protrátil (alonga-se para a frente) muito pequena que impossibilita a sucção de presas grandes. A barbatana dorsal é constituída por raios, as barbatanas peitorais e a anal são curtas e não têm barbatanas pélvicas. 

Outras características marcantes:

 

  • Cabeça alongada, parecida com a dos cavalos, inclusive até nos filamentos que lembram a crina de um cavalo;
 
  • Capacidade de movimentar os olhos em direções opostas independentemente um do outro, tal como um camaleão;
 
  • Mudam a sua cor (mimetismo) como os polvos ou chocos;
 
  • Nadam com o corpo na vertical, movimentando rapidamente as suas barbatanas dorsais;
 
  • Cauda longa e preênsil que usam quando sentem necessidade de se agarrar a algas, ramos e até estruturas artificiais, quer seja para se alimentarem ou para evitarem ser levados pela corrente.

Hippocampus hippocampus

Lentos? Sim… e não!

São considerados os mais lentos de todos os peixes, pois podem demorar cerca de 4 minutos para nadar 1 metro batendo a sua barbatana dorsal entre 30 a 70 vezes por segundo, mas quando é para comer o caso muda de figura. Apesar do seu pequeno porte estes carnívoros são predadores eficientes. Disfarçam-se no meio do plâncton, adaptando a sua cor ao meio que os rodeia, montam uma emboscada e quando a presa (pequenos peixes e crustáceos vivos) está à distância certa apontam-lhe o “focinho” em tubo e usam-no como um aspirador, sugando-a com um poderoso movimento de aspiração quase impercetível à observação humana. Como não têm dentes as presas são engolidas inteiras. Um adulto come 30 a 50 vezes por dia.

 

Habitat

Tipicamente costeiros, habitam as águas calmas rasas tropicais ou pouco profundas temperadas um pouco por todo o mundo e preferem viver em áreas abrigadas, tais como as pradarias marinhas, rias e estuários, associados a recifes de corais ou mangues.

Foto: Nuno Sá, National Geographic Portugal

Reprodução

Aqui entramos no campo do UAU!!

 

Como animais extraordinários que são, a sua biologia reprodutiva é exclusiva, pois são os únicos animais conhecidos em que é o macho a ficar “grávido”. Os cavalos-marinhos formam casais que duram toda a vida.

 

Desde o início da Primavera até ao Verão os machos movem-se para as águas pouco profundas próximo da costa e aí estabelecem o seu território (pode ter até 1m2). Através da apresentação, por parte destes, de rituais de corte e de “pistas” visuais e químicas são escolhidos como companheiros pelas fêmeas que se movem pelos territórios. 

 

Depois desta escolha, e durante a época de reprodução, macho e a fêmea encontram-se logo pela manhã e iniciam a sua elaborada “dança”, em que o macho nada em movimentos circulares ao redor da fêmea nadando então os dois ao longo da coluna de água formando uma espiral. Daí passam à sincronização da natação com as caudas entrelaçadas. A dada altura deste ciclo a fêmea deposita os óvulos numa bolsa incubadora do macho, passando para ele a responsabilidade de fecundá-los e garantir a maturação dos embriões, fornecendo-lhes oxigénio e comida. 

A gestação dura entre 14 dias a 1 mês e culmina com o macho a dar à luz, contraindo-se repetidamente até libertar as várias dezenas de pequenos juvenis, fantásticas miniaturas de cavalos-marinhos, aproximadamente 1000 indivíduos/gestação, dos quais acredita-se que somente 3% sobrevivem.

 

Estes juvenis que apesar de frágeis são à nascença totalmente independentes dos seus pais, movem-se para águas mais profundas no início da sua vida para se alimentarem e não estarem tão expostos aos predadores, mas não se sabe exatamente para onde vão.

 

 

Em perigo ou não?

Sim. Infelizmente em perigo. Em ambiente selvagem, os cavalos-marinhos possuem uma vida média de 1 a 5 anos, mas apesar da carência de dados relativos a estes magníficos animais acredita-se que todas as espécies de cavalos-marinhos estejam em perigo de extinção.

 

As causas são variadas e sempre, ou quase sempre, associadas ao Homem.

 

A destruição de habitat por causas naturais ocorre mas, infelizmente, é também exponencialmente aumentada pelas atividades recreativas, pela implementação de construções à beira d’água, pelo aumento de poluição e pelas alterações climáticas.

 

O número de indivíduos tem vindo a baixar também devido à pesca acidental (pesca de arrasto e com rede que incidentalmente capturam estes animais), mas principalmente, pelo aumento da pesca ilegal destas espécies para serem usados para três fins:

 

  • Para curarem as maleitas dos humanos na Medicina Tradicional Chinesa (comércio responsável pela captura de aproximadamente 150 milhões de indivíduos por ano);
  • Para o “Curio Trading”, ou seja, o comércio de “lembranças” onde são vendidos como peça de decoração ou amuletos (comércio responsável pela captura de aproximadamente 1 milhão de indivíduos por ano);
  • Para serem vendidos nas Pet shops como animais de estimação de aquário (comércio responsável pela captura de aproximadamente 1 milhão de indivíduos por ano) onde é estimado que menos de 1000 sobrevivam por mais de seis semanas.

 

Nem o extraordinário processo de camuflagem que possuem, consegue, por si só, lutar contra a dizimação que têm vindo a sofrer.

Projetos nacionais e internacionais

De uma parceria entre a ANP|WWF e o Centro de Ciências do Mar surgiu o projeto Cavalos-Marinhos Desconhecidos, financiado pelo Oceanário de Lisboa e o Species Conservation Fund, que tem como objetivo aumentar o conhecimento acerca dos cavalos-marinhos que habitam os mares portugueses, contribuindo assim para a classificação e conservação destas espécies em Portugal.

 

O Projeto Seahorse e o The Seahorse Trust são projetos internacionais que atuam na manutenção, preservação e conservação da espécie para ampliar os conhecimentos sobre estes animais. De acordo com dados presentes no site do The Seahorse Trust, existem iniciativas de conservação do cavalo marinho um pouco por todo o mundo.

Apesar destes e outros projetos e das medidas de conservação implementadas por muitos países é necessário fazer muito mais para garantir a proteção do cavalo-marinho.

 

 

Em Portugal

Existem duas espécies de cavalos-marinhos na costa portuguesa, o Hippocampus hippocampus (cavalo-marinho-de-focinho-curto) (à esquerda da foto) e o Hippocampus guttulatus (cavalo-marinho-de-focinho-longo) (à direita da foto).

Apesar de não se saber o numero certo destes indivíduos ao longo da vasta costa marítima portuguesa, foi em Portugal que em 2001 foi descoberta a maior comunidade de cavalos-marinhos do Mundo. Onde? Na maravilhosa Ria Formosa. 

 

Desde essa data foram vários os trabalhos desenvolvidos pelos investigadores do CCMAR, com autoridades e instituições, tanto nacionais como internacionais, que contribuíram para a criação de duas áreas marinhas protegidas na Ria Formosa, que servirão de refúgio para os cavalos-marinhos, e para a instituição por edital dum “plano de salvaguarda dos cavalos-marinhos na Ria Formosa – Delimitação de áreas de refúgio”, desenhado em colaboração com a Autoridade Marítima Nacional – Capitania do Porto de Faro e Olhão – e com a Direção Regional da Conservação da Natureza e Florestas do Algarve.

 

Além da Ria Formosa, o cavalo-marinho é uma espécie oficialmente protegida nos Açores. No Decreto Legislativo Regional n.º 15/2012/A, de 2 de Abril pode ler-se “O arquipélago dos Açores e a região oceânica que o rodeia são um importante repositório de biodiversidade, com relevância a nível planetário, que necessita de uma adequada proteção que compense as naturais vulnerabilidades resultantes da pequena extensão dos ecossistemas insulares, do isolamento entre ilhas e em relação às regiões continentais, da fragmentação e perda de habitats e da fragilidade das espécies autóctones face a organismos invasores.”

 

Ora, sendo que já referi as várias causas do declínio das comunidades de cavalos-marinhos um pouco por todo o mundo, eu gostava de saber quem é que vai conseguir protegê-los dos piores organismos invasores: os humanos!

Fontes: The Seahorse Trust ~ IUCN Red List Org ~ The Tropical Fish Magazine ~ Oceanário de Lisboa ~ Oceanário de Lisboa ~ Naturlink ~ Biologia para Biólogos ~ DRE Decreto Legislativo Regional n.º 15/2012/A, de 2 de Abril ~ CCMAR

Tu sabes quem vai gostar de ver isto!

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